OS CANÁRIOS
 

ALDEIA DE BOASSAS

          Faz parte da Freguesia de Oliveira do Douro, Concelho de Cinfães, Distrito de Viseu, a aldeia de Boassas (antigamente Avoaças), lugar de interesse turístico, cultural e histórico, «que foi vila e cabeça de couto, ao qual D. Afonso III deu foral, ( ... ), em Santarém, a 15 de Março de 1253.» ( Daciano). Situa-se na margem direita do rio Bestança e altaneira, vê o desaguar destas  águas no rio Douro que se estende a seus pés.

     «Do outro lado do afluente, ( ... ), situa-se, na íngreme encosta, outro rústico povoado, ainda mais antigo e não menos singular. É a vila velha de Boassas, reconhecida como cabeça de Concelho, nos meados do Séc. XIII. Foi o Bolonhês quem, em 1253, lhe concedeu a baptismal carta de foral».Sant'Anna Dionísio  

A vegetação ao longo da encosta  é abundante, rica em oliveiras, laranjeiras, cerejeiras, vinhas, eucaliptos e  pinheiros que enriquecem a paisagem, já de si pitoresca desta aldeia medieval e que determinaram as actividades agrícola e comercial a que se dedicaram os seus habitantes. 

O clima é ameno apesar da proximidade da Serra de Montemuro, pois a sua localização ao longo da encosta, bem como a proximidade do rio Douro protegem-na  da agressões do clima serrano.  

     O casario antigo é feito de pedra e cal, e, em alguns casos, já raros, revestido a lousa e guarnecidos por beirais de madeira. As janelas de guilhotina teimam em dar lugar às incaracterísticas janelas de alumínio e as varandas de madeira começam a rarear. As ruelas estreitas e as escadarias de granito desgastado revelam uma existência secular.  

      No centro do povoado encontra-se a Capela da Nossa Senhora da Estrela,  toda caiada de branco, edificada em 1710 e restaurada em 1929. Possui uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, capela-mor, arco triunfal e nave, dois altares encostados ao arco, um de S. Francisco de Assis e outro de S. Sebastião. À sua frente vê-se o largo com um coreto, mirante privilegiado sobre o Douro e o Cruzeiro da Independência erigido em 1940; ao fundo, um fontanário refresca quem por lá passa e ladeia umas alminhas.

      Deste largo partem caminhos para o “Campo D’Além“, para a  “Calçada“, para o “Poço“, para a “Arribada” em relação à qual Sant’Anna Dionísio escreveu: « À despedida, descemos aos poucos, numa demorada escadaria, tosca e tortuosa, que relaciona o alto do decaído burgo com o bairro do fundo. Assim, ficamos a conhecer o esquipático presépio de casinhotas e moradias sobrepostas familiarmente designadas entre a gente pelo nome de Arribada.» .

         Estas casas, em cascata, agrupam-se em casais, originados por necessidades de segurança que levaram as gentes a agruparem as suas casas, duas ou três, à volta de um pátio, coberto antigamente de “muínha”ou mato, onde se despejavam os dejectos e que era substituída de tempos a tempos. Estes casais eram fechados por portas “fronhas”, “franhas” ou “furenhas”, no dizer do povo, com o “gramitcho”, “feitcho” de ferro que tanto abria por dentro como por fora, e que à noite era “fetchado”, por dentro com a tranca. Assim se defendiam de forma cooperativa e fraterna.

            A aldeia é servida por uma estrada estreita, que serpenteia por entre o casario e que durante muitos anos terminou no largo da capela. Este facto, criou nos locais, um forte espírito de grupo e de pertença, mesmo um certo bairrismo pois, era com orgulho que diziam: “Olha que eu sou de Boassas!”. Hoje, existe pela encosta sul abaixo, uma outra estrada, que dá continuidade à primeira ligando Boassas a Pias e “à Bestança”.

     Esta curiosa designação é referida por Daciano «É curioso notar que, por vezes, se ouve dizer: ( ... ); a Bestança, em vez de o Bestança, ( ... ), ouve-se até, por vezes, dizer: rio Abastança (de a Bastança).», porque «da Bestança saíam as “lobadas d’auga” que regavam os “fantjões” na época do “V’rão”». 

      Em Boassas, as pessoas praticam uma agricultura de subsistência, dedicam-se ao comércio, de fruta, de sardinha (actividade que tornou famosas as “sardinheiras de Boassas”), e de outros produtos que comerciam nas feiras locais. A produção artesanal,  variada outrora, tem vindo a diminuir, restando apenas a produção dos doces regionais, como os bolinhos de manteiga e a produção de regadores, funis, candeias, candeeiros, ..., pelo “fulineiro”, como dizem localmente. Actualmente, bastantes homens trabalham na construção civil, sendo frequente estarem fora da localidade durante a semana, ou mesmo por períodos mais longos, se assim o contrato o exigir, só regressando a casa no fim-de-semana ou nas férias.

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